As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.
Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.
Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.
Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.
Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.
Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento...
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.
Cecília Meireles
sábado, 26 de setembro de 2009
domingo, 23 de agosto de 2009
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
sexta-feira, 27 de março de 2009
terça-feira, 24 de março de 2009
É para lá que eu vou

Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.
Clarice Lispector
domingo, 22 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
Os 6
Indicada pela Ruth, resolvi participar da "bricadeira".
É o seguinte, falo seis coisas sobre mim e indico mais pessoas para que também façam. Mas vou cumprir só metade da missão. Não indicarei ninguém, mas se alguém por ventura veja essa postagem e queira participar sinta-se convidado(a).
E aqui vão meus traumas de infância:
#1_ Quando eu era pequena via gnomos nos cantos do telhado. Eu não consigo lembrar muito bem disso, mas sei que os via e não tinha medo.
#2_ Eu odiava música alta. Tanto, tanto que me dava vontade de chorar.
#3_ Falando nisso, eu ficava c/ vontade de chorar quando não sabia uma questão da prova. E a primeira vez que eu fiquei de prova final adoeci, fiquei c/ febre e até tive delírios.
#4_ Uma vez eu voltei da escola p/ casa contando quantas pegadas daria. Nem lembro quantas deu, a intenção nem era essa, eu só queria demorar p/ chegar em casa. Enfim...
#5_ Outra vez eu peguei uma caixa bem grande (de geladeira) e fiz uma casinha super legal p/ mim, com portinha, janelinhas, etc, e até pintei as paredes c/ giz de cera, mas minha irmã fez eu dar p/ ela... =/ Eu dei (fui ameaçada). E ela nem lembra. =P
#6_ Eu já morei com um tio (Napoleão). Não que isso tenha sido ruim, foi muito importante. Ruim foram os motivos que me levaram a morar lá.
FIM DE PAPO
É o seguinte, falo seis coisas sobre mim e indico mais pessoas para que também façam. Mas vou cumprir só metade da missão. Não indicarei ninguém, mas se alguém por ventura veja essa postagem e queira participar sinta-se convidado(a).
E aqui vão meus traumas de infância:
#1_ Quando eu era pequena via gnomos nos cantos do telhado. Eu não consigo lembrar muito bem disso, mas sei que os via e não tinha medo.
#2_ Eu odiava música alta. Tanto, tanto que me dava vontade de chorar.
#3_ Falando nisso, eu ficava c/ vontade de chorar quando não sabia uma questão da prova. E a primeira vez que eu fiquei de prova final adoeci, fiquei c/ febre e até tive delírios.
#4_ Uma vez eu voltei da escola p/ casa contando quantas pegadas daria. Nem lembro quantas deu, a intenção nem era essa, eu só queria demorar p/ chegar em casa. Enfim...
#5_ Outra vez eu peguei uma caixa bem grande (de geladeira) e fiz uma casinha super legal p/ mim, com portinha, janelinhas, etc, e até pintei as paredes c/ giz de cera, mas minha irmã fez eu dar p/ ela... =/ Eu dei (fui ameaçada). E ela nem lembra. =P
#6_ Eu já morei com um tio (Napoleão). Não que isso tenha sido ruim, foi muito importante. Ruim foram os motivos que me levaram a morar lá.
FIM DE PAPO
sábado, 14 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
'
Adeus, amor, é um animal em extinção na minha floresta de palavras, desde que seus olhos lumiaram no escuro de minha alma.
André Gonçalves
André Gonçalves
sábado, 27 de dezembro de 2008
SEMPRE

Último Romance
(Los Hermanos)
Eu encontrei-a quando não quis
mais procurar o meu amor
E quanto levou foi pr'eu merecer
antes um mês e eu já não sei
E até quem me vê lendo o jornal
na fila do pão sabe que eu te encontrei
E ninguém dirá que é tarde demais
que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe, pequena
Ah vai!
Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
afim de te acompanhar
E se o caso for de ir à praia eu levo essa casa numa sacola
Eu encontrei-a e quis duvidar
Tanto clichê deve não ser
Você me falou pr'eu não me preocupar
ter fé e ver coragem no amor
E só de te ver eu penso em trocar
a minha TV num jeito de te levar
a qualquer lugar que você queira
e ir onde o vento for, que pra nós dois
sair de casa já é se aventurar
Ah vai, me diz o que é o sossego
que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o tempo for te levar
eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar
[Composição: Rodrigo Amarante]
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
NOTA DE REPÚDIO À POLUIÇÃO SONORA DA AV. FREI SERAFIM
As pessoas que freqüentam a Avenida Frei Serafim, puderam perceber nas últimas semanas um ruído proveniente de... Caixas de Som!
Isso mesmo, não bastasse o barulho do trânsito, agora há caixas de som com os piores tipos de “música” na parte mais movimentada da Avenida.
Um lugar em que, graças à nova pavimentação (tava bom de mais pra ser verdade) antes poderia sentar-se para tomar um sorvete, conversar, relaxar, refletir ou até mesmo ler um livro; hoje está um caos, um absurdo, pois ao passar por ela agora lhe é imposto escutar axé, sertanejo e forró.
Não to falando aqui que teria que tocar música clássica ou músicas que pessoas de bom senso consideram “boa música”. Mas já que não dá pra agradar a todos, que não coloquem NADA! O que é errado é essa imposição de estilos musicais de uma média parcela a todas as pessoas que freqüentam o lugar.
O resultado disso é que o meu sentimento, antes de alegria e conforto ao chegar na “Frei” depois de um dia estressante de aulas, foi substituído por REVOLTA! E imagino que seja a mesma situação de outras pessoas que assim como eu, adoram aquele lugar e não querem continuar presenciando tal decadência!
É fato que isso está ERRADO, e vai ter que mudar!
Que essa revolta não fique apenas em discurso! Prometo, pelo meu amor à Frei, que procurarei os responsáveis por tal estapafúrdia e tentarei mobilizar o máximo de pessoas para um protesto a fim de acabar com essa falta de sanidade mental e devolver à
Frei Serafim os ares de encanto que antes transmitia.
Postagem disponível no Blog Strawberry Fields Forever
sábado, 8 de novembro de 2008
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
O Susto
Tateia o tempo
nestas paredes novas.
Tenta inventar uma tarde.
Uma tarde perfeita,
uma tarde
como nunca houve
como nunca haverá de novo.
O tempo tenta os seus ritos de passagem.
Gasta os seus fogos.
Desgasta a pedra dos seus dias.
Prepara a pura
matemática dos cristais.
O tempo traz
uma tarde geométrica
uma tarde simétrica.
O tempo traz
o triste susto desta tarde.
(H. Dobal)
nestas paredes novas.
Tenta inventar uma tarde.
Uma tarde perfeita,
uma tarde
como nunca houve
como nunca haverá de novo.
O tempo tenta os seus ritos de passagem.
Gasta os seus fogos.
Desgasta a pedra dos seus dias.
Prepara a pura
matemática dos cristais.
O tempo traz
uma tarde geométrica
uma tarde simétrica.
O tempo traz
o triste susto desta tarde.
(H. Dobal)
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
terça-feira, 28 de outubro de 2008
E hoje a arte se fez mais uma vez presente.
Toda a discussão hoje em torno da Arte começou quando achei na biblioteca o livro “Iniciação à História da Arte” (de Anthony e H. W. Janson). Analisando as figuras e discutindo o que seria e o que não seria Arte, veio aquelas velhas teorias, etc, etc, concluímos (porém não em definitivo, claro) que a resposta estaria relacionada aos sentimentos que a arte provoca em nós. Ficou nisso, cada uma tinha um compromisso.
Mais tarde convidei minhas amigas para ver a exposição “Velha/Nova Teresina”, do jornalista e fotógrafo Diego Iglesias no Riverside Shopping, que tem por objetivo mostrar aos teresinenses como e quanto mudou a cidade, mostrando fotos antigas e recentes dos mesmos lugares e mesmos ângulos. Interessantíssimo ver aquelas imagens, que já existiam na minha imaginação por causa de algumas leituras, principalmente “Roteiro Sentimental e Pictoresco de Teresina” de H. Dobal.
Figuras, como a antiga construção da Igreja do Amparo, do Palácio de Karnak, nossa bela Frei Serafim, queridos Theatro 4 de Setembro e Cine Rex na praça Pedro II e até Seu Cornélio, foram mostradas como eu queria ver. Exatamente como era na época que eu gostaria de ter vivido. Bom, talvez nem tão exatamente, mas foi esse o sentimento que as fotografias me provocaram: exatidão. Talvez pela naturalidade das fotos atrelada às leituras. Arte.
Mas daí veio outra discussão. Por que um espaço tão pequeno reservado àquela exposição? Mal posicionadas, mal iluminadas, mal preservadas até, algumas estavam com o plástico arrancado. Um bunner simplório e pouco atrativo não convidava os transeuntes a parar e admirar as imagens.
E quando, enfim, a Arte será PUBLICADA? Mais uma reflexão a respeito da arte, provocada pela postagem “Falar é fácil ...” da minha amiga Ruthieli (heartoflilith.blogspot.com ). Como ela mesma diz na postagem o que a massa consome é o que lhes é “imposto” pela mídia, e continuará sendo assim porque os "mais instruídos” querem que seja assim para se sentirem superiores.
A maioria dos brasileiros não tem acesso à Arte e Cultura, são excluídos e marginalizados. Tão bom seria se tivessem opção.
Livros, músicas, livros, fotografias, livros, filmes, pinturas, livros, esculturas, livros, etc.
Por favor não simplesmente culpe “O Governo”. Tente! Faça sua parte. COMO, só você pode saber.
Lembro aqui da Lei A. Tito Filho, que financia e apóia Projetos Culturais. O edital 2008 já foi lançado. Mais informações: Site da FCMC (site, aliás, que merece visitação diária)
Toda a discussão hoje em torno da Arte começou quando achei na biblioteca o livro “Iniciação à História da Arte” (de Anthony e H. W. Janson). Analisando as figuras e discutindo o que seria e o que não seria Arte, veio aquelas velhas teorias, etc, etc, concluímos (porém não em definitivo, claro) que a resposta estaria relacionada aos sentimentos que a arte provoca em nós. Ficou nisso, cada uma tinha um compromisso.
Mais tarde convidei minhas amigas para ver a exposição “Velha/Nova Teresina”, do jornalista e fotógrafo Diego Iglesias no Riverside Shopping, que tem por objetivo mostrar aos teresinenses como e quanto mudou a cidade, mostrando fotos antigas e recentes dos mesmos lugares e mesmos ângulos. Interessantíssimo ver aquelas imagens, que já existiam na minha imaginação por causa de algumas leituras, principalmente “Roteiro Sentimental e Pictoresco de Teresina” de H. Dobal.
Figuras, como a antiga construção da Igreja do Amparo, do Palácio de Karnak, nossa bela Frei Serafim, queridos Theatro 4 de Setembro e Cine Rex na praça Pedro II e até Seu Cornélio, foram mostradas como eu queria ver. Exatamente como era na época que eu gostaria de ter vivido. Bom, talvez nem tão exatamente, mas foi esse o sentimento que as fotografias me provocaram: exatidão. Talvez pela naturalidade das fotos atrelada às leituras. Arte.
Mas daí veio outra discussão. Por que um espaço tão pequeno reservado àquela exposição? Mal posicionadas, mal iluminadas, mal preservadas até, algumas estavam com o plástico arrancado. Um bunner simplório e pouco atrativo não convidava os transeuntes a parar e admirar as imagens.
E quando, enfim, a Arte será PUBLICADA? Mais uma reflexão a respeito da arte, provocada pela postagem “Falar é fácil ...” da minha amiga Ruthieli (heartoflilith.blogspot.com ). Como ela mesma diz na postagem o que a massa consome é o que lhes é “imposto” pela mídia, e continuará sendo assim porque os "mais instruídos” querem que seja assim para se sentirem superiores.
A maioria dos brasileiros não tem acesso à Arte e Cultura, são excluídos e marginalizados. Tão bom seria se tivessem opção.
Livros, músicas, livros, fotografias, livros, filmes, pinturas, livros, esculturas, livros, etc.
Por favor não simplesmente culpe “O Governo”. Tente! Faça sua parte. COMO, só você pode saber.
Lembro aqui da Lei A. Tito Filho, que financia e apóia Projetos Culturais. O edital 2008 já foi lançado. Mais informações: Site da FCMC (site, aliás, que merece visitação diária)
Amor de Índio

Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo cuidado, meu amor
Enquanto a chama arder
Todo dia te ver passar
Tudo viver a teu lado
Com o arco da promessa
Do azul pintado pra durar
Abelha fazendo mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser todo
Todo dia é de viver
Para ser o que for e ser tudo
Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado, meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do teu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver
No inverno te proteger
No verão sair pra pescar
No outono te conhecer
Primavera poder gostar
No estio me derreter
Pra na chuva dançar e andar junto
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser tudo
(Beto Guedes - Ronaldo Bastos)
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